Educação com sentido

11 de maio de 2016
Júlia Azeredo

Quando você escuta a palavra “desenho” pensa em que? Animação, arquitetura, arte? É natural associar “desenho” ao campo das artes. Com frequência associamos também, o ato de desenhar, ao lazer e à infância. Mas pouca gente sabe como o desenho pode afetar de maneira positiva as relações profissionais e a maneira como as instituições se comunicam. E é preciso entender porque, infelizmente, vamos perdendo a habilidade de desenhar e de nos expressar visualmente ao longo da vida.

Durante o processo de alfabetização e boa parte da vida escolar infantil, os cadernos de exercício e livros são completamente ilustrados e as crianças são encorajadas a colorir e desenhar o tempo todo. O aprendizado nessa fase é muito visual e criativo e, se ele funciona tão bem, fica difícil entender porque chega o tempo em que aprender se resume a uma quantidade maçante de textos no quadro e nos livros. Segundo Mirian Celeste Martins, professora do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pesquisadora em arte educação, “a relação entre a aquisição da escrita e a diminuição do desenho ocorre porque a escola dá pouco espaço a este quando a criança se alfabetiza “ algo a ser repensado, e que explica porque, na idade adulta, desenhar é tão difícil para grande maioria das pessoas. É possível mudar a maneira como as informações são transmitidas, mas como?

No Rio de Janeiro, uma professora de biologia, vem retomando o desenho e a cor para além da pequena infância. Monique Oliveira ilustra suas aulas com riqueza e é sucesso unânime entre os alunos. Ela conta: “Eu acho muito chato encher o quadro de textos. Queria algo mais atrativo e prazeroso. Os alunos se divertem tentando copiar meus desenhos no caderno e aprendem ao mesmo tempo. Quando faço os desenhos eles prestam mais atenção e tudo fica mais interessante!”

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O encantamento que essa professora causa nos alunos não é por acaso. O pensamento visual auxilia na comunicação, no ensino e no aprendizado. Os alunos que tem a oportunidade de aprender dessa maneira, tem mais chance de fazer parte de uma parcela assustadoramente pequena da população brasileira classificada como alfabetizados funcionais.

Um estudo conduzido pelo IPM (Instituto Paulo Montenegro) constatou que, apenas 8% da população brasileira em idade de trabalhar consegue se expressar e se fazer compreender através de letras e números. Essa constatação reflete um problema na educação e na forma de se transmitir conhecimento. É preciso transformar!

A expressão “Quer que desenhe?” não surgiu á toa. Quantas vezes a gente se viu diante de situações em que palavras não foram suficientes para explicar algum assunto ou questão? Quantas vezes a gente sente dificuldade em organizar pensamentos ou planejar pequenas ações do cotidiano?

A especialista em pensamento visual, Sunni Brown, em uma de suas palestras, conta da sua experiência de ensinar adultos a usar a linguagem visual e porque isso pode ser uma tarefa tão difícil. Ela explica que somos acostumados a associar o desenho à uma atividade anti-intelectual e seguindo esse raciocínio, “rabiscar” não poderia ser considerado uma ferramenta séria de aprendizado ou de trabalho.

Um professor não costuma ver com bons olhos um aluno que rabisca durante as aulas, por exemplo. Um chefe que “pega” um funcionário desenhando em uma reunião também não deve ficar muito satisfeito. O curioso é: pessoas que tem o hábito de tomar notas visuais enquanto expostos a uma informação são mais propensas a retê-la. Ao contrário do que se pensa, rabiscar aumenta o foco e a atenção das pessoas em até 29%!

Para que as informações sejam de fato absorvidas e memorizadas, elas precisam passar por uma combinação de estímulos que podem ser visuais, auditivos, de leitura/escrita ou sinestésica. Cada indivíduo estabelece ao menos duas dessas conexões com os estímulos emocionais para processar essas informações. Aquelas que utilizam da linguagem visual estabelecem as quatro conexões ao mesmo tempo!

Fazer esquemas visuais é uma maneira muito eficaz de processar informações e resolver problemas para todos, e, para algumas pessoas, o pensamento visual é a maneira mais natural de raciocínio, como é o caso dos autistas. Temple Grandin é professora na Universidade do Colorado e foi diagnosticada com autismo na década de 50. Considerada hoje como a profissional mais bem sucedida e famosa com a doença, Grandin ajuda a desmitificar a maneira como entendemos o funcionamento do cérebro e como diferentes tipos de mentes podem solucionar diferentes tipos de problemas.

Ela alerta para um sintoma dos sistemas de ensino clássico, que rotula os alunos e não abre espaço para que outros tipos de inteligência se desenvolvam. Mundialmente reconhecida por seus projetos de design para produção de equipamentos e instalações para pecuária, ela teve sua história contada em um filme, tem 10 livros e diversos artigos publicados sobre o universo dos “pensadores visuais” natos.

A boa notícia é que o pensamento visual é uma habilidade que pode ser (re)aprendida à qualquer tempo e por todo tipo de pessoa.

“O rabisco/desenho é uma habilidade inata do ser humano e estamos simplesmente negando a nós mesmos esse instinto.”Sunni Brown

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